Notícia

26 Fevereiro 2018

Do ano da serpente ao ano do cão, cinco anos negros para o jornalismo na China

PHOTO: GREG BAKER / AFP
Enquanto a China se prepara para festejar o seu Ano Novo, a RSF lembra que mais de 50 jornalistas e blogueiros ainda permanecem atrás das grades. Do ano da serpente ao ano do cão, o presidente Xi Jinping sedimentou seu poder sobre os escombros da liberdade de informação.

Mais uma vez, dezenas de jornalistas e blogueiros chineses vão passar o Ano Novo na prisão. No poder desde o fim de 2012 e recentemente reeleito por mais cinco anos, o presidente Xi Jinping decidiu impor a sua visão de uma sociedade baseada na censura e na vigilância, e da qual a ética jornalística e o direito dos cidadãos à informação estão excluídos.


"Instamos a comunidade internacional a fazer mais pressão sobre o governo chinês para que ele liberte os jornalistas e blogueiros em detenção, insistiu Cédric Alviani, diretor do escritório Ásia do Leste da Repórteres sem Fronteiras (RSF). O jornalismo independente é indispensável ao exercício dos direitos humanos e civis e, contrariamente ao que afirma Pequim, ele é totalmente compatível com a cultura chinesa como vemos em Hong Kong e em Taiwan."


Campanha contra os "boatos"


No início de 2013, começo do ano da serpente, muitos esperavam que o novo presidente trouxesse um vento de abertura e de reformas. Paradoxalmente, aquele cuja família foi vítima da revolução cultural dedicou-se a restaurar uma cultura midiática digna da era maoísta.


Com a sua "campanha contra os boatos", Xi Jinping, rapidamente, retomou o controle das mídias que, sob o seu predecessor, haviam, de forma tímida, ecoado o pluralismo de opiniões na sociedade chinesa. O presidente exige, de agora em diante, que os jornalistas sejam difusores da "propaganda do partido."


O Departamento de Publicidade do Partido Comunista Chinês (DPPCC), que tem controle sobre as ações de 14 ministérios, transmite a cada dia às mídias uma lista de assuntos a serem destacados ou proibidos, sob pena de sanções. Até mesmo os correspondentes estrangeiros reclamam do assédio que sofrem das autoridades.


Penas pesadas como exemplo


Em abril de 2016, a jornalista Wang Jing foi condenada a quatro anos e meio de prisão por ter reportado uma tentativa de suicídio com objetivo político ocorrida na praça Tiananmen. Dois anos antes, Gao Yu, ex-correspondente do Deutsche Welle, acusada de ter fornecido documentos confidenciais à uma mídia estrangeira, foi forçada a "confessar seus crimes" na televisão e condenada a cinco anos de prisão. A pena foi, mais tarde, convertida em liberdade vigiada, mas a jornalista não tem permissão de viajar para o exterior para receber os cuidados que o seu estado de saúde requer.


Os jornalistas cidadãos e os blogueiros, que tentaram retomar a tocha da informação livre, tornaram-se um dos alvos privilegiados do sistema chamado de "residência vigiada em um local designado" que institucionaliza o sequestro, a detenção em segredo e a tortura dos ativistas. O blogueiro Wu Gan, 44 anos, foi condenado a oito anos de prisão por ter denunciado a corrupção do governo. O jornalista cidadão Lu Yuyu, 38 anos, que documentava os movimentos sociais, pegou quatro anos de prisão. O jornalista Zhen Jianghua, 32 anos, fundador do site anti-censura Across the Great Firewall, permanece, por sua vez, detido em segredo.


Maus tratos


Ainda que o governo não aplique mais a pena de morte contra os defensores da liberdade de imprensa, pratica, por outro lado, maus tratos em grande escala. Ano passado, o prêmio Nobel da paz e prêmio RSF Liu Xiabo e o blogueiro Yang Tongyan morreram, ambos em consequência de cânceres não tratados quando estavam em detenção.


Em 2014, o editor honconguês Yiu Mantin (Yao Wentian), hoje com 75 anos, foi condenado, apesar de sua idade e de sua saúde frágil, a dez anos de prisão por querer publicar um livro crítico com relação a Xi Jinping. No mesmo ano, o editor sueco Gui Minhai, 53 anos, que preparava revelações sobre as amantes do presidente, foi sequestrado na Tailândia e permanece até hoje em detenção e impedido de receber cuidados médicos, mesmo sofrendo de uma grave doença neurológica.


Os observadores se preocupam também com a vida de Huang Qi, 54 anos, Prêmio RSF 2004 e fundador do site 64 Tianwang, prêmio RSF 2016, em detenção provisória a mais de um ano; com a vida do jornalista cidadão Ilham Tohti, 48 anos, prêmio Sakharov 2016, condenado a prisão perpétua; do jornalista Liu Feiyue, 47 anos, fundador do site de informações sobre os direitos humanos Civil Rights and Livelihood Watch; e de Liu Xia, 56 anos, viúva do prêmio Nobel da paz Liu Xiaobo, em isolamento a mais de oito anos.


A internet sob vigilância


Com os jornalistas e blogueiros disciplinados, o presidente Xi Jinping avança agora sobre o último nível de circulação de informação livre: as redes sociais e os aplicativos de mensagens. Em 2017, a autoridade de regulação da internet proibiu os jornalistas de citarem informações oriundas de redes sociais, caso não tenham sido previamente "confirmadas" pelo governo.


O governo também determinou o fechamento gradual dos serviços VPN estrangeiros, que permitem contornar a "grande muralha digital", e proibiu comentários anônimos na internet. A vigilância da rede ameaça agora diretamente cada um dos 770 milhões de internautas chineses: vários dos quais já fizeram objeto de pena de prisão em regime fechado por simples comentários privados.


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Em uma coluna publicada em sete línguas, o secretário geral da RSF, Christophe Deloire, fez recentemente apelo às democracias parlamentares para que se mobilizem diante do risco de contágio da "nova ordem da informação" chinesa, que Pequim procura promover ativamente para além de suas fronteiras. A China ocupa uma posição baixa no ranking RSF da liberdade de imprensa (176o em 180 países).Parte inferior do formulário